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Carreiras e direitos

Proposta de usar IA no lugar de servidores aposentados: o que se sabe

Em entrevista no fim de setembro de 2026, a coordenadora da área econômica de uma das campanhas presidenciais questionou se vagas de servidores aposentados poderiam ser substituídas por inteligência artificial em vez de repostas por concurso público. A fala gerou reação de sindicato e parlamentares. Entenda o que foi dito, o que veio depois e como a IA é usada hoje no serviço público federal.

Por Agência Communicare Publicado em Atualizado em 7 min de leitura
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Fachada do Supremo Tribunal Federal, em Brasília
Pedro França/Agência Senado, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Nesta matéria

A declaração no podcast G4, em 30 de setembro de 2026

Em entrevista ao podcast G4, publicada em 30 de setembro de 2026, Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, questionou se vagas de servidores públicos que se aposentam precisariam ser repostas por concurso público.

A fala foi registrada de forma idêntica por dois veículos independentes entre si, ICL Notícias e A Tarde: "E aí substitui e faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?"

Segundo a reportagem do A Tarde, ela não apresentou estimativa de quantos cargos ou quais carreiras poderiam ser afetadas, nem como seria garantida a continuidade dos serviços prestados por quem se aposenta. O mesmo veículo relata que, em agosto de 2026, ela já havia defendido reduzir o número de ministérios e revisar carreiras, em contexto anterior à fala do G4.

Linha do tempo da declaração sobre IA e reposição de servidores
  1. 01

    30 de setembro de 2026

    Entrevista ao podcast G4: questionamento sobre substituir, por IA, a reposição de servidores aposentados

  2. 02

    19 de outubro de 2026

    Entrevista ao programa Pânico: alegação de distorção da fala original, sem abandono expresso da ideia

  3. 03

    20 de outubro de 2026

    A Tarde publica reportagem com reação dos parlamentares Otto Alencar e Daniel Almeida

  4. 04

    22 de outubro de 2026

    Sisejufe publica nota pública pedindo esclarecimentos sobre a proposta

Fonte: ICL Notícias; A Tarde, 20 de outubro de 2026; Sisejufe, 22 de outubro de 2026, consultadas em 23 de outubro de 2026.

A resposta dela, em 19 de outubro de 2026

Quase três semanas depois, em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, em 19 de outubro de 2026, Daniella Marques voltou ao tema. Segundo a reportagem do ICL Notícias, ela disse que sua fala estava sendo distorcida, citando vídeos que a ridicularizavam com a interpretação de que todos os servidores seriam substituídos por inteligência artificial. Ela defendeu a preservação de algumas carreiras, mas a mesma reportagem registra que ela não abandonou expressamente a ideia de substituir parte do funcionalismo por IA no fluxo de aposentadorias.

Vale uma ressalva de precisão: a expressão "distorção" usada aqui é uma síntese da reportagem do ICL sobre a fala no Pânico, não uma citação literal da entrevistada.

Ilustração conceitual sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho
Imagem ilustrativa sobre o debate entre inteligência artificial e o futuro do trabalho. Foto: Elekes Andor · CC BY-SA 4.0

A nota pública do Sisejufe, em 22 de outubro de 2026

Em 22 de outubro de 2026, a Diretoria do Sindicato dos Servidores do Judiciário Federal no Rio de Janeiro (Sisejufe) publicou nota pública sobre o episódio, com base na reportagem do ICL de 19 de outubro. A nota reconhece que a inteligência artificial pode melhorar processos administrativos, mas defende que seu uso exige planejamento, transparência, supervisão humana e avaliação real das necessidades de pessoal antes de qualquer substituição de quadro.

O texto argumenta que o Judiciário da União já enfrenta sobrecarga de trabalho, adoecimento funcional e falta de servidores, e que a IA não pode ser tratada como solução automática para reduzir força de trabalho. A frase-síntese da nota resume a posição do sindicato: "Modernizar não pode significar abandonar a população ou sobrecarregar ainda mais quem trabalha." O tom é institucional, sem ataque pessoal, e a nota pede esclarecimentos da campanha sobre o que pretende fazer, já que o programa de governo não detalha a medida. Não há, no texto, exigência formal de retratação.

A preocupação expressa pelo Sisejufe não é exclusiva do Judiciário Federal: o debate sobre automação e inteligência artificial no serviço público é mais amplo, e a Secretaria de Governo Digital já registra, segundo dados de 2025, 144 órgãos planejando adotar assistentes de IA e 41 com diretrizes próprias definidas — números que incluem áreas administrativas de diferentes esferas e carreiras, não apenas o Judiciário. A mesma pergunta sobre planejamento, transparência e continuidade dos serviços feita pelo sindicato tende a se repetir em qualquer categoria do funcionalismo em que a reposição de aposentados por concurso venha a ser colocada em dúvida.

O que cada lado disse sobre a proposta de IA no lugar de servidores aposentados
O que cada lado disse sobre a proposta de IA no lugar de servidores aposentados
QuemO que disse
Daniella Marques (coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro)Questionou se vagas de servidores aposentados poderiam ser substituídas por IA em vez de repostas por concurso; depois, disse que a fala foi distorcida, sem abandonar a ideia expressamente
Sisejufe (sindicato de servidores do Judiciário Federal no RJ)Defendeu planejamento, transparência e supervisão humana no uso de IA, sem exigir retratação
Sen. Otto Alencar (PSD-BA)Chamou as propostas de vazias e defendeu o concurso público como base da capacidade técnica do Estado
Dep. Daniel Almeida (PCdoB-BA)Disse que o plano segue a lógica do desprezo ao serviço público e ao servidor público

Fonte: ICL Notícias; A Tarde, 20 de outubro de 2026; Sisejufe, 22 de outubro de 2026, consultadas em 23 de outubro de 2026.

Pintura histórica chinesa mostrando candidatos reunidos diante de resultado de exame público
Imagem histórica ilustrativa sobre a origem do exame público por mérito, base do concurso público atual. Foto: Qiu Ying (séc. XVI) · Domínio público

O que parlamentares disseram sobre a proposta

A reportagem do A Tarde, publicada em 20 de outubro de 2026, registrou reações de dois parlamentares baianos. O senador Otto Alencar (PSD-BA) chamou as propostas de vazias, defendendo que concursos públicos são essenciais à capacidade técnica do Estado: "Servidores de carreira se fazem com concursos públicos. Ninguém nomeia um auditor-fiscal, por exemplo."

O deputado federal Daniel Almeida (PCdoB-BA) afirmou que o plano segue a lógica do desprezo ao serviço público e ao servidor público, sem nenhuma garantia de direitos: "Segue a lógica do desprezo ao serviço público, ao servidor público, sem nenhuma garantia de direitos." Essas falas são opiniões políticas de parlamentares de oposição à proposta, não dados a verificar, e devem ser lidas como tal. Para ver como cada candidato ao segundo turno se posiciona em temas como esse, veja a análise Quem defende o servidor no segundo turno? Os 16 placares.

Como a inteligência artificial é usada hoje no governo federal

A página oficial do Governo Digital, da Secretaria de Governo Digital (SGD), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), traz um retrato de como a IA é empregada hoje na administração federal, com dados de 2025: 182 soluções de IA em operação, 144 órgãos planejando adotar assistentes de IA e 41 órgãos com diretrizes de IA já definidas, coordenados pelo Núcleo de Inteligência Artificial (NIA).

Em nenhum dos materiais oficiais consultados a IA aparece como substituta de cargos ou de servidores: a Estratégia Federal de Governo Digital descreve o uso da tecnologia para automatizar processos, reduzir tempos de espera e aumentar a precisão, e cita servidores como público de capacitação, não como quadro a ser reduzido por automação. Não foi encontrada, nesta apuração, política federal que preveja substituição de servidores por IA; isso descreve o que não foi encontrado nas fontes consultadas, não a inexistência de qualquer iniciativa do tipo em algum nível de governo.

Uso de inteligência artificial no governo federal, dados de 2025
  • Soluções de IA em operação182 órgãos ou soluções
  • Órgãos planejando assistentes de IA144 órgãos ou soluções
  • Órgãos com diretrizes de IA definidas41 órgãos ou soluções

Fonte: Secretaria de Governo Digital/MGI, página Inteligência Artificial, consultada em 23 de outubro de 2026.

Fileiras de racks de servidores de computador em data center
Infraestrutura de tecnologia usada para rodar soluções de inteligência artificial no setor público. Imagem ilustrativa. Foto: Carl Lender · CC BY 2.0

O que a Constituição diz sobre concurso e despesa com pessoal

A exigência de concurso público para investidura em cargo efetivo está no artigo 37, inciso II, da Constituição Federal. Essa é a mesma base que organiza as carreiras e a progressão funcional hoje vigentes, detalhadas no guia de progressão funcional no serviço público. Já o artigo 169, caput e parágrafo 1º, incisos I e II (na redação da Emenda Constitucional 109/2021), trata do outro lado da equação: a despesa com pessoal ativo, inativo e pensionistas não pode exceder os limites definidos em lei complementar, e a criação de cargos ou a admissão de pessoal dependem de prévia dotação orçamentária suficiente e de autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias.

Essa combinação de regras é o pano de fundo técnico do debate: de um lado, a Constituição exige concurso para preencher cargo efetivo; de outro, impõe limites orçamentários à criação e ao preenchimento de vagas. Não foi localizado, nesta apuração, dispositivo legal que obrigue a reposição automática de uma vaga toda vez que um servidor se aposenta no Executivo federal; a decisão de abrir ou não um novo concurso para repor aposentadorias é, hoje, discricionária, dentro dos limites orçamentários e legais vigentes. As regras específicas de quando um servidor pode se aposentar estão detalhadas na reportagem Aposentadoria do servidor: o que mudou com a EC 103/2019.

IA como ferramenta de apoio x IA no lugar da reposição de servidores
IA como ferramenta de apoio x IA no lugar da reposição de servidores
Uso da IASituação encontrada nesta apuração
Ferramenta de apoio ao trabalho de servidores (automação de processos, redução de tempo de espera)Descrita em material oficial do governo federal, com metas até 2026 e dados de 2025
Substituta da reposição de cargos de servidores aposentadosNão encontrada em política oficial; é uma ideia levantada em entrevista, sem detalhamento público de carreiras, prazo ou garantias de continuidade dos serviços

Fonte: Secretaria de Governo Digital/MGI; Constituição Federal, art. 37, II, e art. 169, §1º, consultados em 23 de outubro de 2026.

O que está em jogo no debate entre IA e reposição de servidores

O episódio expõe uma diferença de fundo entre duas ideias que podem ser confundidas no debate público: usar IA como ferramenta de apoio ao trabalho de quem já está no serviço público, e usar IA no lugar da reposição de cargos de quem se aposenta. O material oficial hoje disponível trata quase exclusivamente da primeira ideia, com metas de capacitação de servidores e automação de processos administrativos. A segunda ideia, levantada na entrevista de setembro, não tem, até a data desta matéria, detalhamento público sobre quais carreiras seriam afetadas, em que ritmo ou com qual garantia de continuidade dos serviços hoje prestados por servidores de carreira.

Essa falta de detalhamento é, em si, um dado relevante para o leitor que acompanha o tema: tanto a nota do sindicato quanto os parlamentares citados pedem esclarecimento sobre o alcance prático da proposta, não apenas sobre sua intenção declarada.

O Pacto pelo Serviço Público buscou um canal oficial de contato da campanha de Flávio Bolsonaro e da economista Daniella Marques para pedir um posicionamento sobre o alcance prático da proposta, incluindo quais carreiras seriam afetadas, em que ritmo e com qual garantia de continuidade dos serviços. Não foi possível localizar canal oficial de contato verificável até o fechamento desta matéria. Caso a campanha se manifeste publicamente sobre o tema, esta reportagem será atualizada.

Até que a campanha detalhe o plano em documento formal, o que existe publicamente é a declaração original, a resposta posterior a críticas e a reação institucional, sem uma proposta de política de pessoal formalizada para avaliação técnica. O debate, em curso num período eleitoral, se soma a outras discussões sobre o futuro do funcionalismo, como a tratada na reportagem Reforma administrativa: o que muda com a PEC 32 e a PEC 38.

Ilustração genérica sobre inteligência artificial e aprendizado de máquina
Imagem ilustrativa sobre inteligência artificial aplicada a processos administrativos. Foto: Mike MacKenzie · CC BY 2.0

Fontes consultadas

ICL Notícias, reportagem sobre a declaração no podcast G4 e a resposta no programa Pânico, consultada em 23 de outubro de 2026 (https://iclnoticias.com.br/?p=132293). A Tarde, reportagem sobre a repercussão da proposta entre parlamentares, publicada em 20 de outubro de 2026 (https://atarde.com.br/politica/fim-de-servidores-em-possivel-governo-flavio-repercute-no-parlamento-1406440). Nota pública do Sisejufe, de 22 de outubro de 2026 (https://sisejufe.org.br/noticias/nota-publica-do-sisejufe-democracia-servico-publico-e-direitos-o-que-esta-em-jogo-no-segundo-turno-das-eleicoes-de-2026/). Página "Inteligência Artificial", Secretaria de Governo Digital/MGI, consultada em 23 de outubro de 2026 (https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1). Estratégia Federal de Governo Digital, eixo "Um Governo Inteligente e Inovador", consultada em 23 de outubro de 2026 (https://www.gov.br/governodigital/pt-br/estrategias-e-governanca-digital/EFGD/inteligente-e-inovador). Constituição Federal, artigos 37, II, e 169, caput e parágrafo 1º, incisos I e II, consultados no portal do STF em 23 de outubro de 2026 (https://portal.stf.jus.br/constituicao-supremo/artigo.asp?abrirBase=CF&abrirArtigo=169).

Perguntas frequentes

01

O que Daniella Marques disse sobre substituir servidores por inteligência artificial?

Em entrevista ao podcast G4, em 30 de setembro de 2026, ela questionou se vagas de servidores aposentados precisariam ser repostas por concurso público ou se poderiam, ao longo do tempo, ser substituídas por inteligência artificial. Não detalhou cargos, carreiras nem prazo.

02

Quem é Daniella Marques?

É a coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, segundo as reportagens do ICL Notícias e do A Tarde que registraram a declaração.

03

A proposta prevê demitir servidores atuais?

Pelo teor da fala registrada no podcast G4, a ideia discutida é não repor por concurso as vagas de servidores que se aposentam, substituindo-as gradualmente por IA, não a demissão de quem já está no cargo. Não há detalhamento público adicional sobre o alcance da medida.

04

Ela confirmou ou recuou da proposta depois da repercussão?

Em entrevista ao programa Pânico, em 19 de outubro de 2026, ela disse que a fala foi distorcida e defendeu a preservação de algumas carreiras, mas, segundo o ICL Notícias, não abandonou expressamente a ideia de substituir parte do funcionalismo por IA no fluxo de aposentadorias.

05

O que o Sisejufe disse sobre a proposta?

Em nota pública de 22 de outubro de 2026, o sindicato reconheceu que a IA pode melhorar processos, mas defendeu que seu uso exige planejamento, transparência e supervisão humana, e que não pode ser solução automática para reduzir força de trabalho em um Judiciário já sobrecarregado.

06

Quais parlamentares criticaram a proposta e o que disseram?

O senador Otto Alencar (PSD-BA) chamou as propostas de vazias, defendendo o concurso público como base da capacidade técnica do Estado. O deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) disse que o plano segue a lógica do desprezo ao serviço público, segundo o A Tarde.

07

Como a inteligência artificial é usada hoje no governo federal?

Segundo a Secretaria de Governo Digital (MGI), dados de 2025 apontam 182 soluções de IA em operação, 144 órgãos planejando adotar assistentes de IA e 41 órgãos com diretrizes de IA definidas, principalmente para automatizar processos e reduzir tempo de espera.

08

Existe hoje alguma política oficial para substituir servidores por IA?

Não foi encontrada, nesta apuração, política federal que preveja isso. Os materiais oficiais tratam a IA como ferramenta de apoio ao trabalho de servidores, não como substituta de cargos. A ausência de achado não deve ser lida como prova de inexistência em qualquer nível de governo.

09

A Constituição obriga repor por concurso toda vaga de servidor aposentado?

Não foi localizado dispositivo que obrigue essa reposição automática no Executivo federal. A abertura de concurso para repor aposentadorias é hoje discricionária, condicionada aos limites do artigo 169, parágrafo 1º, incisos I e II, da Constituição Federal.

10

O que diz a Constituição sobre a exigência de concurso público?

O artigo 37, inciso II, exige aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos para investidura em cargo ou emprego público efetivo, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão de livre nomeação e exoneração.

11

O que limita a criação ou o preenchimento de novos cargos públicos?

O artigo 169, parágrafo 1º, incisos I e II, da Constituição Federal exige prévia dotação orçamentária suficiente e autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias para a criação de cargos e a admissão de pessoal.

12

Essa proposta já foi formalizada em algum documento oficial da campanha?

Não foi localizado, até a data desta matéria, documento formal da campanha detalhando quais carreiras, prazos ou garantias de continuidade dos serviços estariam envolvidos na ideia levantada na entrevista de setembro de 2026.

#Inteligência artificial#Concursos#Servidores Federais#Eleições 2026#Carreiras e direitos

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